É mesmo fato que os homens apreciam uma sinfonia orgástica anunciando os píncaros da glória da parceira? Ou a coletânea de urros e sussurros não passa de mais um dos tantos mitos que conferem ao erotismo muita pirotecnia e pouco gozo? Não sei, mas tenho uma tese.

Começando por uma confissão: eu não sou do tipo barulhenta. Uns gemidinhos para sinalizar que o amado está no caminho certo, vá lá, faz parte do pacote. Mas não é encenação, é reação — se está gostoso, hmmm, “dilícia” (gemidinho), tão espontâneo e natural quanto o sonzinho gutural de degustar um petit gâteau. E, se está maravilhoso, acho que nenhuma outra trilha sonora é tão eficiente quanto o silêncio para embalar a entrega que decorre do prazer e da alegria. Nessa hora, quanto menos estímulos competirem, mais intensa é a sensação.

Não existe nenhuma relação entre prazer e sonoridade — menos ainda no raciocínio de que, quanto maior a alegria, mais forte a gritaria. E ainda arrisco o palpite de que muita gritaria indica justamente o contrário. Sigamos a lógica. Quando alguma coisa dói, é normal que a gente grite. O organismo foi programado para isso, é um mecanismo de defesa que sinaliza um pedido de socorro. Disso para a ópera pornográfica foram milênios de esforço adaptativo.

Talvez a associação entre gritaria e prazer seja herança da indústria pornográfica. Aquele esplendor de “uh” pra cá e “oh” pra lá, e hordas de “yes” e “give it to me”, com loiras incandescentes transbordando orgasmos sucessivos, pode ter criado nos homens a impressão de que, se a mulher não geme alto e em bom tom, é porque ele não está agindo a contento. E, nas mulheres, pode ter incutido o sentimento de obrigação de urrar agradecidamente cada vez que ele torce a rebimboca ou ajusta a parafuseta. Tudo culpa de Hollywood. Mas por que a gritaria sublençóis se tornou um fetiche, eu diria que é uma inversão compensatória para os males da modernidade.

Para o macho oprimido pelos tempos e massacrado pela cultura, causar dor à sua fêmea é o resgate de um poder ancestral de predador. Simbolicamente, os gritos das mulheres são uma forma de dizer “ui, como você é grande e forte” (ou seja, macho), “ui, como machuca” (macho), “ui, sou toda sua, faça comigo o que quiser” (machooooooooooo). Nisso está toda a lascívia de um espetáculo que, mais do que sonoro, é compensatório — é uma maneira de o homem se sentir dominante sobre a fêmea e de ela se submeter à única coisa que ainda os difere: o pênis.

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